17 janeiro 2012

O espiritismo é uma ciência?

    Allan Kardec, bem como o movimento espírita de ontem e de hoje, caracterizam a doutrina espírita como "ciência". Porém, muitos críticos questionam semelhante denominação para uma doutrina que imaginam ser simples "crença de espíritos". Dessa forma, para um debate não superficial faz-se imprescindível saber tanto o que é, de fato, esse campo de saber chamado "ciência" e aqueloutro denominado "espiritismo", e se ambos concordam em algo do posto de vista epistemológico (enquanto filosofia da ciência) a respeito do seu trabalho e determinação. 

     Para tanto, pergunta-se: o que é ciência? Aliás, o que de fato dá o estatuto epistemológico de uma ciência enquanto ciência, diferindo-a de outros campos de saber? A questão é grave e merece algumas reflexões prévias.

     Um primeiro ponto importante é: quem está autorizado a determinar ou não um determinado campo de saber como científico? São os próprios cientistas? Certamente que, não. Então, quem? Ora, apenas os epistemólogos - palavra tomada aqui como derivando da ideia de Filosofia da Ciência e não como Teoria do Conhecimento - enquanto campo filosófico que investiga esse campo de saber denominado "ciência", de um ponto de vista filosófico e crítico. 

      De forma bastante ampla e resumida, pode-se caracterizar uma ciência como um campo de saber que possui necessariamente um objeto específico de estudo ou pesquisa (como "corte" e "apropriação" de uma região ontológica determinada a partir do conjunto ou totalidade de entes que são de alguma forma); que possui também um método adequado a este "objeto" de estudo; e, por fim, uma teoria (dita "científica" ou nos moldes científicos determinados na história da ciência) que lhe dê suporte na pesquisa e empreendimento. Ora, resta saber se o espiritismo possui os requisitos necessários e fundamentais de uma "ciência" desse tipo.

     De forma não menos resumida, o espiritismo também possui um objeto de estudo, um método próprio e uma teoria que lhe dá suporte. Mas como e de que forma? Ora, o seu "objeto" é a própria "fenomenologia" derivada dos espíritos (que não são seres considerados sobrenaturais, nem imaginativos, mas seres que existem ontologicamente enquanto tais, enquanto seres humanos despidos de um corpo físico correspondente), que por sua vez implica no estudo da mediunidade nos seres humanos; seu método é à primeira vista experimental no que diz respeito à fenomenologia medianímica dos seres, mas também se denomina de Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE). E sua teoria (eis o seu diferencial) decorre da própria fenomenologia mediúnica, pois não foi Kardec quem criou uma teoria espírita, mas foram esses seres que se auto-denominaram de "Espíritos" (com "E" maiúsculo, pois com minúsculo significa outra coisa) que lhe colocaram no caminho da descoberta, pois não foram simplesmente e como geralmente se pensa, ditados plos Espíritos sem qualquer análise racional e crítica de seu conteúdo e fatos. Ora, o que é mais verdadeiro e científico (ou seja, dentro de seus próprios critérios), uma teoria "inventada" ou "criada" por um homem ou uma teoria derivada da convergência de mais de mil homens (embora sem e fora do corpo) e sob a análise racional dos críticos vivos? Se os críticos do espiritismo fossem realmente sérios, analizariam esse fator crítico que o torna indubitavelmente mais ciência do que a própria ciência que o nega (ou melhor, alguns cientistas preconceituosos, não sérios ou comprometidos devidamente com a verdade, já que negam a priori, em sentido kantiano mesmo, sem ao menos analisarem seriamente aquilo que lhes foge ao escopo de saber). Que aqueles que se dizem cientistas de verdade analisem os fatos espíritas e só depois julguem com conhecimento de causa; que submetam os fatos explicados pela doutrina espírita ao cadinho da razão científica, mesmo moderna, e concluam se essa doutrina é ou não é ciência. Mas aqui nos deparamos com um problema denunciado pelos próprios epistemólogos: é que os cientistas, em sua grande maioria, ignoram os prinípios que caracterizam sua própria atividade de nominada "ciência". Portanto, nesse caso, estão e são (em sua maioria) desautorizados a falarem sobre o que é ou deixa de ser ciência. Assim, somente os filósofos da ciência poderiam dar semelhante veredicto. Mas no campo filosófico existe não menos preconceito a certas coisas, pois cientistas e filósofos são humanos; e todo humano tem suas preferências valorativas, axiológicas. Mas a verdade é que, Kardec desafiou e continua a desafiar todo aquele crítico sério que queira raciocinar e observar os fatos explicados pelo espiritismo, pois o espiritismo, por se dizer verdadeiro, não teme as críticas, desde quando estas sejam de fato fundadas, bem fundamentadas (principalmente pela lógica, campo que o espiritismo busca sua força de verdade).

07 junho 2011

Os verdadeiros aspectos do Espiritismo

Pesquisando os livros da codificação espírita, encontrei esta passagem de Allan Kardec a respeito dos três (verdadeiros) aspectos da doutrina espírita:

"O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o fato das manifestações, os princípios  de filosofia e de moral que dela decorrem e a aplicação desses princípios (...)” (KARDEC. O Livro dos Espíritos, Conclusão, it. VII)

Como está explícito, os três aspectos da doutrina espírita não são a trilogia "ciência, fiosofia e religião" ou "ciência, filosofia e moral" propaladas pelo movimento espírita brasileiro, mas, conforme Kardec, "ciência, filosofia e aplicação destas". O que passar disso é mera opinião (doxa).  

Vitor Duarte

02 janeiro 2011

Espiritismo e Religião

     Embora muitos autores do movimento espírita afirmem opiniaticamente que o  "Espiritismo é uma religião", para o codificador da doutrina o Espiritismo não era uma religião, no sentido comum do termo; o Espiritismo era (é) uma religião filosófica. Mas, o que constitui uma religião filosófica? Seria o mesmo que religião no sentido usual da palavra? Não! Eis o fio essencial que talvez resolva toda esta polêmica entre os espíritas de ontem e de hoje. O espiritismo, tal como o platonismo, o pitagorismo, é uma simples religião filosófica. Mas não é, e nunca foi, uma religião usual. Eis a concepção pura do codificador, aprovada e revisada pelos espíritos superiores (numa linguagem espírita). Entretanto, as pessoas continuam afirmando, insistentemente, que a doutrina espírita é uma religião. Isso só gerou (e ainda continua gerando) confusões conceituais, deturpações na prática doutrinária, ignorância da real natureza da doutrina, igrejismos, superstições baratas, crendices ingênuas, e tantos outros elementos distantes da verdadeira concepção espírita. O espiritismo, entretanto, é muito mais que religião; por outro lado igualmente, muito mais que uma ciência, pois esses dois saberes possuem limites nítidos. Talvez ele seja, em sua natureza essencial, mais filosófico, pois as fronteiras filosóficas parecem ser ilimitadas. O espiritismo se pauta em leis naturais (não entraremos no problema sobre o acesso do homem a estas leis ou se as mesmas são o produto de suas concepções idealizadas). Enfim, é preciso que se entenda o que é uma religião filosófica. Para tanto, deve-se conhecer os caminhos da filosofia. E esses caminhos o codificador percorreu com propriedade.


     Aqueles que afirmam que o espiritismo é uma religião, talvez não entendam a verdadeira natureza do campo religioso. Assim, a grande questão é: o que é uma religião? Por outro lado: o que faz de uma doutrina uma religião? Estas questões merecem maior reflexão e debate nos meios espíritas. Mas isso não pode ser feito por espíritos fanáticos-religiosos.


     Finalizemos com uma frase de Allan Kardec para reflexão dos espíritas:

"O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica; foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções, apresentando-o como inimigo formidável; foi ela, enfim, quem o proclamou nova religião. Foi um passo errado, mas a paixão não raciocina melhor” (KARDEC, OQE, 2002, p.126)


Referência: 


KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. 46.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002.